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A ACENDER A PAIXÃO PELA BATERIA E PERCUSSÃO EM PORTUGAL

  • José Luís Dias

"“Feeling” e “Flow” são os dois elementos mais importantes que posso trazer à música "[Entrevista]

Com a sonoridade de um Jazz poderoso e exitante , este dinâmico trio apresenta melodias originais e cativantes. O veterano baterista Michael Lauren de Nova York , o guitarrista Vasco Agostinho e o contrabaixista João Custódio ambos de Portugal, juntam-se para comporem um jazz singular, uma mistura de Hard Swinging e Rocking Jazz. “Michael Lauren Trio” toca um Jazz diferente com atitude, fresco, duro, honesto otimista e autêntico!


Temos que agradecer ao Michael e toda a equipa da Mobydick Records pela oportunidade e pelo contato para fazer esta entrevista. Entrevista completa abaixo:




[LD]: Como é que começou o MIchael Lauren Trio? Qual foi a sua inspiração?

"O Trio começou porque tinha “gigs” no Hotel Myriad em Lisboa. Tocamos um reportório de “jazz standards” no sofisticado e "swingado" estilo de Nova Iorque. Três de nós tiveram de imediato um relacionamento. Eu tocava com vassouras 90% do meu tempo. Foi um prazer para mim porque eu adoro tocar com vassouras. Eventualmente começamos a ter outros trabalhos, incluindo alguns festivais. Foi na preparação para esse concerto, que ensaiamos originais e foi aí que pensei em gravar um álbum. Infelizmente, a pandemia parou todo o trabalho e isso só durante a primavera de 2021, quando o NIco Guedes convidou-me para fazer parte de uma série de concertos “World WIde Live Stream” que ele tinha programado. Esta oportunidade permitiu o Trio gravar o album “Live at Mobydick Records”. Eu queria que o Trio tivesse uma "harder edge" e um som mais agressivo do que tínhamos antes. E imaginei um som que era grande, gordo, contundente e corajoso. Eu queria uma banda de jazz com som de Rock 'n Roll.."


[LD]: Por que um “Trio”? Por que não um “Duo” ou um “Quarteto”? Qual é a ligação importante entre a Guitarra do Vasco Agostinho e o contrabaixo do João com a sua bateria?


"Eu queria tocar num ambiente musical diferente daquele que eu tinha no meu grupo The Michael Lauren All Stars, que era um septeto. Trabalhei também em várias "Big Bands" incluindo: Orquestra Jazz de Matosinhos, Orquestra de Jazz do Algarve, Orquestra Jorge Costa Pinto e The Lisbon Swingers. Tocar em trio tem uma abordagem diferente daquela onde se toca num formato maior. O jogo em trio tem mais espaço para interagir e a opção de tocar mais denso. Sempre gostei de tocar no formato Trio. A minha ligação ao Vasco e ao João é de suporte, estabelecendo uma base sólida e deixando a improvisação desenvolver organicamente. Ambos são músicos maravilhosos e muito acessíveis para tocar"



[LD]: O seu primeiro single “Biji” foi lançado no passado dia 25 de março. Qual o significado por trás do nome? O que é que você quer transmitir para as pessoas?

"Biji é uma música de Sonny Rollins que o Vasco trouxe para o grupo. Biji tem vários significados. Em inglês significa uma pessoa pequena que é macia, fofa, calorosa e fofinha e também

é o nome da polpa de soja, que é um alimento. Em Punjabi significa Mãe ou Avó.

Em "Kurdish" é a palavra para “Vida Longa”. E em chinês é um gênero da literatura clássica chinesa. Porque é que Sonny Rollins escolheu esse nome para sua música? Eu não faço ideia!

As músicas de Sonny Rollins são sempre muito divertidas de tocar por causa das suas melodias rítmicas e formas harmônicas lógicas. Biji é uma música tão alegre e otimista, que inspirou-me a dar ao ouvinte um balanço profundo e contundente que era revigorante. Também queria contrastar o swing da secção A com um Latin Swing Feel na secção B. Isso não apenas define claramente a estrutura da música, como também dá ao ouvinte outra sensação de groove. “Feeling” e “Flow” são os dois elementos mais importantes que posso trazer para a música. É a minha alegria e amor pela música que quero transmitir ao ouvinte, transmitir desde o início do álbum, que esta é uma banda de um baterista e que os solos de bateria podem ser declarações coerentes, melódicas e não apenas um circo. "





[LD]: Por que é que você chama a sua música de “Jazz com Atitude”? Para muitas pessoas o significado é percetível, mas para outras pode não ser. Pode descrever em poucas palavras esta “citação” sobre a sua música.

“Jazz with an Attitude” significa jazz que é enérgico, fresco, honesto, contundente, tocado com o coração, emocionante e autêntico."


[LD]: Qual é a principal razão para um baterista criar um album? Seja em Trio ou em Duo?

"Quando és o líder de um grupo que está a criar um álbum, não importa qual instrumento tocas, és tu quem determina qual música será tocada, como queres que os outros músicos a toquem e como queres quer que o disco soe. Em outras palavras, tu estás no controlo do processo de fazer o álbum. Gravar um álbum dá a oportunidade da tua música ser ouvida pelas pessoas em todo o mundo.. Do lado dos negócios é a forma como a pessoa se promove para ser convidada para fazer concertos etc…"


[LD]: “Ritual do Cabrito” e “Bonfim Blues” são uma homenagem a Portugal? Depois de tantos anos no nosso país, já se sente um português? Qual é o significado por trás dessas duas faixas em particular do novo álbum do seu Trio?

"Não posso falar pela “Ritual do Cabrito” porque essa é a música do Vasco. Mas,” Bonfim Blues” é sobre Bonfim a freguesia do Porto onde vivi e quando trabalhei na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo). Na verdade, durante esses 18 anos vivi tanto em Lisboa como no Porto, viajando semanalmente no Alfa entre essas duas cidades. Eu tinha o melhor dos dois mundos. Morar nessas duas cidades deu-me a oportunidade de fazer algo especial em ambas. Amo Portugal pelas mesmas razões que todos os portugueses amam o seu país. Não posso dizer que me sinto português porque sempre serei nova-iorquino, mas abracei as melhores qualidades de Portugal e sempre me senti em casa aqui. Na verdade, Portugal é a minha casa. Mudar para cá para lecionar na ESMAE e cumprir todos os objetivos que me propus, foi uma experiência enriquecedora para a vida".



[LD]: Sabemos que já tinha ideias de gravar um album! Porque a MobyDick Records?

"Na verdade, eu não estava a pensar em gravar nenhuma música com o Trio até que o Nico Guedes me convidou para fazer parte da série “World-Wide Live Stream Concerts” que ele estava a programar. Embora eu não estivesse realmente interessado em fazer um concerto ao vivo para uma sala vazia, o facto de isso ser transmitido do estúdio de gravação da Mobydick Records, senti que era certo para mim. Foi uma grande oportunidade para gravar algo especial. Eu acreditava que se tudo corresse da maneira que eu acreditava que poderia correr, teríamos uma gravação ao vivo que seria retirada da transmissão e depois mixada e masterizada mais tarde para minha visão sonora. Depois que a transmissão acabou, eu sabia que tínhamos os ingredientes para uma excelente gravação. O concerto foi emocionante, orgânico e nós três estávamos completamente ligados uns ao outro. Enquanto estávamos a arrumar o equipamento, o Budda e o Nico perguntaram-me se eu estaria interessado em que a Mobydick Records lançasse o concerto como um álbum ao vivo. Eu disse que sim imediatamente. Conheço os dois há vários anos e eles sempre me fizeram sentir como uma família. Eu acreditava no selo deles e sabia que Alex Liberalli, esposa do Budda, não era apenas uma grande artista, mas geria a editora e tinha experiência em promover os discos da editora. Para mim, a oportunidade de trabalhar com artistas e amigos, que não apenas respeitavam quem eu era, mas também amavam, apoiavam e acreditavam sinceramente no que o Michael Lauren Trio havia acabado de criar, foi perfeito."



[LD} O resultado excedeu as suas expetativas? Como é qiue foi trabalhar com o Budda e o Nico Guedes neste processo de gravação

"O resultado atingiu as minhas altas expectativas. É tão lindo e gratificante que meu conceito para o álbum de estreia do Trio se tenha concretizado. O Trio teve um ótimo desempenho e o Budda obteve o som que eu procurava nas suas mixagens. O Budda é um engenheiro, músico, compositor e uma pessoa realmente incrível. Foi muito fácil para mim trabalhar com ele e fazê-lo entender a minha visão. Ele queria realmente obter o som que eu estava a procurar neste disco. Ele nunca parou de tentar até que eu estivesse satisfeito. Como eu nunca estava em Braga quando ele mixava, o processo consistia em enviar-me as faixas mixadas conforme o processo decorria, para comentários, sugestões e finalmente para eu fechar o álbum completo. Foi uma ótima maneira de trabalhar. Recomendo o Budda Guedes para quem procura um engenheiro para gravar e/ou mixar as suas músicas. O Nico não esteve envolvido na mixagem, mas como eu disse na resposta anterior, ele foi a força motriz que tornou este disco possível. Ele fez os gráficos fantásticos para o álbum e editou os vídeos gravados no concerto ao vivo. É um artista muito criativo. Ele é maravilhoso baterista, compositor e cineasta. Também como o seu irmão, ele era muito fácil de trabalhar. Devo mencionar que a masterização do álbum por Frederico Cristiano realmente fez uma enorme diferença para trazer o som final. Tive a sorte de ter uma equipa tão excelente a trabalhar comigo."


[LD] Fale-nos um pouco do seu kit... O que é que usou neste álbum?

"O kit usado foi um Yamaha Hybrid Maple. Eu queria um álbum de jazz com um som de Rock n’ Roll, por isso usei um bombo de 20”x16”. Os toms são um rack de 12”x8”, um floor de 14”x13” e usei uma tarola de 14”x6”. Sou artista da Yamaha nos últimos 14 anos e o que amo nas baterias Yamaha é sua consistência, sua capacidade de manter a qualidade do som em toda a gama de dinâmicas, sua afinação e a qualidade de fabricação de suas baterias e hardware. Meus pratos são Zildjian, pois sou artista Zildjian há mais de 30 anos. Os pratos que usei nesta gravação foram: 23” K Custom Special Dry Ride, 22” K Constantinople Light Ride, 19” Kerope Crash e 14” Kerope Hats."



[LD] O que vêm a seguir para Michael Lauren?

"Espero que muitos concertos com o Trio. Tenho um concerto com Kyle Green, um excelente guitarrista/compositor americano a viver em Tomar no dia 7 de Maio em Souré, e concertos com a The Postcard Brass Band. Claro que vou continuar a dar aulas na minha International Drum Academy em Lisboa. Também planeio dar mais masterclasses/workshops e apresentar-me em festivais de bateria no próximo ano. Contribuir para a cena musical portuguesa e ajudar os bateristas a melhorar as suas habilidades sempre foi e ainda é uma prioridade para mim."


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