A ACENDER A PAIXÃO PELA BATERIA E PERCUSSÃO EM PORTUGAL

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  • Sérgio Vieira

Paul Motian e o bêbado a cair pelas escadas


Foto de Sérgio Vieira

Não é segredo que um dos meus grandes ídolos e influências é Paul Motian. O seu estilo livre, as suas ideias imprevisíveis, a sua energia e a maneira não ortodoxa de abordar a bateria chamaram-me desde sempre muito à atenção. Outra característica muito interessante que me desperta imenso interesse no seu jeito de tocar é a confiança e convicção. Confiança em (principalmente) ser diferente e aceitar as suas ideias musicais não usuais. Confiança em saber quem se é e definir isso como uma barreira segura para construir um estilo único e independente. E isso é menos usual do que se pensa, principalmente se tivermos por base o famoso “tu tens que tocar assim” ou “não é dessa maneira que se toca isso”. Quando se trata de criar e desenvolver a sua própria personalidade musical (principalmente se esta for contrastante ao padrão imposto pelo music business) é necessário criar um ponto de vista bastante sólido sobre o que se faz, com profundidade, embasamento e confiança.


Tudo isso veio à minha mente, quando li uma entrevista de Paul Motian em que ele cita algo bem interessante sobre um comentário de Lennie Tristano: a maneira que Motian solava o “trade four”. Tristano fala claramente que aquilo soava como “um bêbado a cair escadas abaixo”. Talvez para alguns isso soaria como uma dura crítica ao estilo e fraseado, mas a maneira como Motian interpretou isso faz -me perceber (ainda mais) a razão dele ser um dos meus ídolos. Pura e simplesmente, Motian aceitou isso como um elogio. E então, passou a criar essa mesma imagem na sua cabeça sempre que iria solar um trade, para além disso, tentava sempre deixar isso claro quando solava dessa forma. Quando questionado pelo entrevistador, qual razão pela qual aquilo afetou Motian positivamente quando poderia ter afetado negativamente, Paul fala com simplicidade sobre como aquilo foi diferente, em como ele tocou algo tão inusitado, inusual, e fora de padrões que levou Tristano a fazer essa relação. E não é só isso.

Na mesma entrevista, Motian também fala de outro comentário acerca de sua sonoridade, dessa vez sobre quando Lennie White cita que a bateria soa como um monte de latas. Isso poderia trazer sentimentos negativos para quem ouve uma crítica como essa. Mas Motian, mais uma vez, encara de outra forma. Ele achou isso genial, e ainda justifica a sua sonoridade de acordo com sua maneira peculiar de tocar, usando sempre muitos rimshots, e a procura de uma característica mais aberta, com mais harmônicos. E também, ele diz o quanto o aro faz parte da sonoridade da bateria, e que muitas vezes ele toca apenas no aro ao invés das peles, ampliando assim o espectro do que seria o som total de um tambor, com as suas inúmeras possibilidades.



Isso traz-nos uma reflexão bem interessante para os nossos solos, trades, grooves, etc: O que é que pensas enquanto tocas? O que é que assumes mentalmente enquanto tocas? Que imagens crias no momento em que estás no instrumento? Na minha perspectiva, acho muito mais interessante, criativo, subjetivo e exploratório poder imaginar um bêbado a cair pelas escadas e o som de um monte de latas, do que pensar apenas em paradiddles ou killer phrases.

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