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A ACENDER A PAIXÃO PELA BATERIA E PERCUSSÃO EM PORTUGAL

  • Sérgio Vieira

[Ensaios] Fórmula 1 e Improvisação: Dois temas completamente distintos, certo? Bem, nem tanto...

Sérgio Vieira

Dois temas completamente distintos, certo? Bem, nem tanto... Fernando Alonso, piloto espanhol duas vezes campeão de Fórmula 1 (2005 e 2006) fez uma comparação entre categorias de automobilismo e citou a dificuldade em improvisar na considerada categoria máxima do desporto a motor. De maneira mais direta, o comentário veio justificar a dificuldade de se impor um estilo de pilotagem baseado principalmente na disciplina e obrigações técnicas que a categoria exige. Com experiência em outras competições automobilísticas, o piloto relatou que tudo na F1 é extremamente fechado, onde tudo deve ser seguido à risca para se chegar aos resultados. Rotina, disciplina, repetições, controlo... tudo isso tem muito a ver, não só com o estudo da bateria, mas obviamente com o estudo musical de maneira geral, para todos os instrumentos.


Mas o ponto que pretendo abordar não é exatamente esse. Quero sim falar sobre a possibilidade (ou no caso da F1, da não possibilidade) de improvisação. Dentro de uma categoria tão fechada em termos de tecnologia, circuitos, padrões de direção e estratégias lógicas, Alonso afirma ser muito difícil improvisar qualquer outro tipo de movimento, ou mais além, impor mais acentuadamente um estilo de condução pessoal. O resultado é sempre uma padronização que tem como foco um objetivo: consistência. E não seria esse o objetivo principal do trabalho técnico de um músico? Ser consistente, procurar resultados e objetivos satisfatórios apoiados em repetições, repetições e repetições? Sim, mas... e esse “mas” pode ser bastante interessante.


Uma das minhas buscas recentes é sempre procurar lacunas, oportunidades e possibilidades de não repetir padrões, sejam eles os mesmos grooves nos mesmos arranjos, ou o extremo de não ter o mesmo timbre de rim shot duas notas seguidas ou mesmo não tocar com metrônomo. E tem-me trazido alguns resultados divertidos... se outros bateristas também o acharem, aí já é outra história. Mas é um facto (para mim) que a quebra da repetição tem me ajudado muito a me expressar musicalmente de maneira muito mais fluida, orgânica e livre de amarras. Obviamente, o que poderia trazer prejuízos inestimáveis se aplicados em ambientes tradicionais.




Mas o gatilho que me fez perceber a relação entre essa ideia e a Fórmula 1 atual é a reflexão sobre como essas possibilidades podem ou não ser aplicadas. Ou seja, para quem quer ser um piloto campeão hoje, tem que ser extremamente meticuloso e seguir à risca os moldes e padrões, e ir mais a fundo, o desenho perfeito das tangentes de curvas, os momentos exatos de acelerar e travar, as estratégias, o controle absoluto sobre toda e qualquer ação e reação do carro durante a corrida, durante a temporada, durante a carreira. É exatamente isso que Alonso quis dizer com “Tudo é tão controlado que não é possível improvisar. Você repete a mesma rotina a cada duas semanas. Seu estilo de direção permanece o mesmo ao longo dos anos, e você apenas segue as instruções de sua equipa”. Triste, não? Imagine se isso acontecesse com música... Mas, espere! Isso acontece com música, quase sempre. Estilos mais tradicionais geralmente tocados por músicos tradicionais oferecem as mesmas condições da pilotagem Fórmula 1. O famoso: “baterista tem que manter o tempo e o groove, e pontuar a forma".

Bem, sobre essa visão, eu acho muito mais interessante poder me fazer presente em ambientes em que possa ser eu mesmo. Seja em projetos totalmente improvisados, ou principalmente em projetos que, mesmo contando com repertórios previamente compostos, arranjados ou ensaiados, me permitam explorar nuances, possibilidades, timbres, erros, etc., sem diretrizes ou obrigações cirúrgicas. Isso leva-me a um tipo de improvisação num aspeto mais micro, onde é perfeitamente possível imprimir todas essas (e mais tantas outras) possibilidades, abrindo um leque de (tantas outras) possibilidades, gerando ainda (tantas) outras possibilidades.


A improvisação da qual estou a falar não se trata da visão “free-jazz” ou “avant-garde”, mas sim, das oportunidades de poder tocar no dia a dia as ideias que lhe surgem nos exatos momentos em que está a tocar, sem a obrigação de repetir grooves ou fills, cabendo apenas ao bom senso e ao bom gosto impor o limite de como essas ideias serão ajustadas para o trabalho que se está a realizar. É uma maneira de pensar, de ver, de aplicar a música. Há quem goste, há quem não. Há quem prefira tocar fundamentado em moldes (seja eles quais forem) muito mais próximos aos da Fórmula 1, principalmente baseado na ideia que se vende sobre “como ser um bom baterista”.

Para finalizar, quero apenas deixar uma sugestão para reflexão: quais os prós e contras em fazer parte de um trabalho onde tudo o que se toca é rigorosamente seguido aos mínimos detalhes das ordens “da equipa”; e quais os prós e contras sobre estar num trabalho onde podes ser tu mesmo, e tocar da maneira como quer tocar, com a sua personalidade, somando e criando uma personalidade coletiva do projecto ao qual fazes parte?